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É
Hoje! Estamos em 13 de dezembro de 1912. Olhe pro céu estrelado e
veja como ele está lindo. Risca o luar de prata de Exu
uma estrela cadente, talismã nordestino, e os arautos
celestiais com enormes Asas Brancas, anunciam boa sorte e proteção.
Na matriz, os sinos de Deus ecoam no soar dos meus tambores, no
tocar dos tamborins: chegara o filho do sertão!
A criança de pele dourada com traços angelicais surge do Baião de
Dois entre o cometa Januário e estrela Santana. Luiz Gonzaga do
Nascimento, o nome todo homenagem: Luiz para Santa Luiza,
festejada em 13 de dezembro; Gonzaga o sobrenome que o padre
José Fernandes Medeiros escolheu para São Luiz Gonzaga; e
Nascimento por ter o menino nascido bem próximo dos festejos de
Natal.
Vici,
o bichim veio mesmo predestinado. Em 05 de janeiro de 1913 foi
batizado, vésperas da Folia de Reis. E não é que virou REI mesmo.
Viva! Hoje é dia de Reisado! Vamos brincar passarela a fora.
Foliões, pastoras, figuras e moleques se reúnem para festejar com
sanfona,
zabumba,
triângulo
e
pandeiro.
Na fazenda Caiçara, o menino Lula cresce ouvindo o
fole de oito baixos de seu pai.
Em 1920, com apenas oito anos de idade, tem início o reino das
Lindas Canções. A pedido de amigos de seu Januário, Luiz
substitui um sanfoneiro em festa tradicional. Canta e toca a noite
inteira com direito a pagamento de vinte mil réis. E aí cumpadi, com
todo respeito à Dona Santana, mas o agradim amoleceu o coração da
mãe que não queria o menino sanfoneiro. Os convites nunca mais
pararam e nos arredores do Araripe todo mundo já sabia quem era
"Luiz de Januário, Lula, Luiz Gonzaga... aos 15 anos. Em feiras,
festejos e forrós, o jovem Gonzaga sempre em companhia do velho
Januário.
Em Fortaleza, serve às Forças Armadas. Cumprida a missão, ruma ao
sul maravilha! Passa por vários lugares e conhece a garoa da Selva
de Pedra, mas é na cidade maravilhosa que faz morada e da
música o ganha pão.
Zona do meretrício carioca, primeiro emprego. Nos cabarés da Lapa e
nos “inferninhos” da Praça Onze diverte marujos, prostitutas e
nordestinos. Poucos sabem, mas o repertório de Luiz à época é de
tangos, valsas e boleros.
De um conterrâneo pernambucano vem a cobrança pelas origens. Por que
não tocar canções da terra Natal para matar as saudades? E assim
xaxados, chamegos, cocos e xotes, como na infância com o velho
Januário, retornam à vida de Gonzagão.
No gogó e na sanfona, Luiz Gonzaga ensaia. Nas ondas da Rádio
Nacional, a mais importante emissora do país da década de 40, meu
padim, Padre Ciço abençoa a sintonia do Fole Prateado. O frenesi
de “Vira e Mexe” - primeira canção de sua autoria - lhe rende
a vitória no concurso de calouros do programa Ary Barroso.
Ovacionado pela platéia, o sanfoneiro garante contrato, com direito
a gravação de dois elepês em 78 rotações.
O
artista que jamais renega suas raízes estende a homenagem aos irmãos
nordestinos para além das notas musicais. O terno e a gravata jamais
subiriam aos palcos novamente em suas apresentações. Inspirado em
Lampião, rei do cangaço, forte marca de seu povo, Gonzagão agora é
herança, Gonzagão é chapéu de couro e gibão!
Nas andanças por este país, desenvolve estilo próprio. Piadas,
críticas ao descaso dos governos e causos de sua vida artística
dividem o palco com belas canções que retratam a alegria, a
esperança e fé a força do povo nordestino. “Xote, baião e xaxado,
violeiro e cantador”, frevo e maracatu, que Luiz canta com todo
agrado e louva com todo amor.
Na carinhosa homenagem de Paulo Gracindo, o rosto arredondado se
torna o apelido Seu Lua. Para a amiga Elba, Luiz é Leão do
Norte, assim como João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna ou a
calunga revelando o Carnaval.
O
talento sobe degrau a passos largos e o reinado se fortalece. Vossa
Majestade traz lições. Em 1946 resolve
mostrar como se dança o baião. “E quem quiser
aprender, é favor prestar atenção”. A canção estoura nas paradas
de sucesso e parte pra turnê mundial em diversas vozes: Espanha,
Itália, França, Estados Unidos e Japão. Cai nos encantos da pequena
notável. Todos querem gravar Baião.
Ao lado do parceiro Humberto Teixeira, nascem outros clássicos do
repertório: Assum Preto, Respeita Januário, Meu Pé de Serra.
Mas quando o verde dos "óio", se "espaia" na
prantação” surge a Asa Branca da saga nordestina, Asa Branca
da saudade. Asa Branca do Sertão!
“Nós já cantemos o baião e o pé de serra. E a Asa Branca que veio lá
da nossa terra. Mas nós agora temos coisa bem melhor. Temos a nova
dança que se chama o siridó” Um passo à frente, dois atrás,
uma vortinha. Vamo até de manhãzinha. Na nota dó, nasce o Siridó...
mais uma com Teixeira.
Os costumes e a cultura nordestina se destacam na parceria com Zé
Dantas. A dupla anuncia as
Vozes da Seca,
o ABC do Sertão e
o
desabrochar da Juventude: “... Toda
menina que enjôa da boneca é siná que o amor já chegou no coração”.
Tudo é poesia! A flor do Mandacaru se torna deusa do asfalto na
Passarela.
Os versos da canção autobiográfica surgem ao lado de Hervê Clodovil.
Em A Vida do Viajante, sua vida é andar por
esse país, pra ver se um dia descança feliz. Guardando as
recordações, das terras onde passou, andando pelos sertões e dos
amigos que lá deixou. Seu Lua faz história seu moço, e das boas!
Em Caruaru é dia de São João, a quadrilha vai começar. Olha a
chuuvaaaaaaa, já passou! Minha gente vem pro terreiro. Gonzagão
empresta estilo próprio pra falar de amor e saudade do sertão em
cantigas que alegram as Festanças do folclore nordestino.
Vixi seu moço, oiá que belezura de mágica com a terra: são os
bonecos do ceramista Vitalino!
Luiz
Gonzaga do Nascimento retratou a vida, os costumes e o folclore de
seu povo sim sinhô seu moço. Mas fez muito, muito mais que isso. Seu
Lua colocou
todo mundo pra dançar! Dançar
baião, xote, xaxado, e chamego.
De
A a Z, mais de mil canções, pra ficar de rosto colado ou levantar a
poeira
da terra do mandacaru, do cangaço e da caatinga. Fez
obra musical única, carregada de arranjos, ritmos,
harmonias e melodias.
Criou partituras de amor, orgulho e alegria
para desenhar notas musicais que embalam a alma.
E
assim, em chapéu de couro e gibão,
atendendo ao pedido de Vossa Majestade durante último show no
Teatro Guararapes, do Centro de Convenções de Recife, em 06 de
junho de 1989, nosso Gonzagão será lembrado “como
o sanfoneiro que amou e cantou muito seu povo, o sertão; que cantou
as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes, os
valentes, os covardes, o amor.
Lembrado como
filho de Januário e dona Santana”
Enfim, um centenário em meio a muita festa, 100 anos em glória!
A Mocidade enaltece o luxuoso centenário do poeta,
instrumentista, cantor e compositor da
música verdadeiramente popular brasileira. Filho do sertão,
majestade do baião! Em nossa viagem fantasia,
o chapéu de couro é chapéu de bamba. Coberto com o
manto vermelho e branco da Mocidade, o Leão do Norte hoje é Leão da
Glória. |